Tempo Comum
Deixei-me seduzir
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22º Domingo do Tempo Comum · Ano A
30 de agosto de 2026
Caros irmãos e irmãs, na oração coleta da missa de hoje pedimos a Deus: “Semeai em nossos corações o amor ao vosso nome.”1 É uma oração que nós elevamos a Deus pedindo justamente que nossos corações possam amar o nome de Deus. E esta ação da nossa parte é uma resposta ao amor de Deus, que por primeiro se comunicou a nós. No entanto, a nossa resposta é necessária para que nós possamos estreitar esses laços com Deus. De sua parte, Ele está sempre próximo de nós, mas nós precisamos vivenciar também esta proximidade D’Ele, uma proximidade que passe pela nossa vida, pelo concreto daquilo que nós vivemos.
A própria oração, continuando, diz: “e, estreitando os laços que nos unem convosco, fazei crescer em nós o que é bom e guardai com amorosa solicitude o que nos destes.” Ou seja, quando nós estreitamos os nossos laços com Deus, e assim nos empenhamos nesta obra de salvação que Deus realiza em nosso favor, colaborando com a sua ação, o que é bom cresce em nós. Nós não somos bons porque não fazemos coisas más. A bondade verdadeira, aquela essência da bondade, consiste em estar na presença de Deus. Se nós estreitamos os nossos laços com Ele, essa bondade então cresce em nossos corações, precisamente porque cresce em nossa vida a presença de Deus. Que, traduzindo, seria: nós nos abrimos para a ação de Deus, damos espaço para a palavra de Deus em nossas vidas, trabalhamos segundo a graça de Deus, e por isso mesmo a presença de Deus então vai crescendo em nossas vidas. É algo encarnado. Aqui está a dinâmica da encarnação: a obra da encarnação cresce em nossas vidas, de tal forma que nós, então, somos transformados por essa presença divina, pela presença que nos santifica e que nos salva. Então, aquilo que Deus pede de nós é também para que nós possamos, agindo segundo Ele, crescer no próprio bem, naquilo que é bom para nós, e que é salvação em nossas vidas.
Um elemento muito interessante aqui está justamente no fato de a oração ser uma súplica a Deus para que Ele nos auxilie na correspondência ao seu amor, porque somente na correspondência o amor de Deus, que é dinâmico e fonte de vida, produz os efeitos de vida no coração responsivo.
Na primeira leitura, do profeta Jeremias, nós ouvimos: “Seduziste-me, Senhor.”2 É a experiência do amor de Deus que se manifesta a nós. Deus, em sua grandiosidade, nos envolve com o seu amor, que nos seduz e nos atrai para si. No entanto, esse Deus que nos atrai para si, nesta obra, faz o coração humano desejá-Lo. A continuação da leitura diz: “e deixei-me seduzir.” Ou seja, aquele coração que, contemplando o amor de Deus, se deixa levar pela obra do amor de Deus. O deixar-se seduzir, então, é uma ação de correspondência ao amor de Deus. O próprio Deus exige essa resposta e nós colaboramos com ele quando nos deixamos seduzir e nos entregamos ao seu projeto, à sua ação, para que Ele possa conduzir os nossos passos, de uma forma muito concreta em nossa história.
Lembro aqui o Papa Bento XVI, na sua encíclica Deus Caritas Est, que faz uma referência a esse amor.3 O amor de Deus tem também características de eros, ou seja, aquele amor que exige uma resposta. O amor de Deus é oblativo, se dá inteiramente, mas também exige de nós essa resposta. Aí está a característica do amor eros: incitar a resposta. Então, também em nossas vidas, vivendo a experiência do amor de Deus e nos lançando nesta aventura de deixar-nos ser conduzidos por Ele, vivemos também essa dupla realidade.
O profeta disse: “Foste mais forte, tiveste mais poder. Tornei-me alvo de irrisão o dia inteiro, todos zombam de mim.”4 Ou seja, ele está caminhando na perspectiva desse amor oblativo de se entregar; ele vive as dificuldades e permanece mesmo assim firme na missão, mesmo com as angústias, com o amargor daquela oposição que existe à palavra de Deus, à qual ele é fiel. Ele permanece. E permanece por quê? Porque, mesmo quando deseja afastar-se da missão por causa de tantas dificuldades, ele ainda tem a experiência de não resistir à ação de Deus. Ou seja, ele sente as dificuldades na sua vida, sente as dores na missão, mas não criou resistência a Deus. Como permanece com o coração aberto a Deus, não consegue parar, porque não consegue desvincular-se de Deus. Ele quer permanecer nessa comunhão; tem consciência do próprio drama, das suas dificuldades, mas o amor de Deus é aquele espaço, como uma plataforma, onde a sua vida acontece: com as dores, as alegrias, os sofrimentos, as perseguições. Mas Deus está ali, como aquele que é o fundamento que dá sentido a tudo.
O refrão do salmo de hoje trata disso de uma forma muito bela: “A minha alma tem sede de vós, como a terra sedenta, ó meu Deus.”5 Somos chamados a viver este salmo como verdadeira oração, ou seja, aquela oração do reconhecimento de quem é Deus, do seu amor que nos alcançou e seduziu, e do nosso coração também, que se deixou seduzir por esse amor e o deseja cada dia mais, e cada dia mais quer permanecer ali com ele. E, ao mesmo tempo, a permanência se dá dentro de uma dinâmica. Não é um permanecer inerte: é o permanecer daquela pessoa que está numa caminhada e cada dia mais deseja aproximar-se desse amor, dar passos de aproximação. Quer dizer, na sua vida interior o coração seduzido cresce na intimidade com Deus. Há um estreitamento nos laços de amor para com Deus.
No evangelho de hoje, de São Mateus, temos Jesus que mostra na sua própria vida e missão a dor, o sofrimento humano por causa da Palavra encarnada.6 Ou seja, aquilo ou aqueles que estão contra a palavra de Deus não vão poupar as pessoas que trazem em si a palavra. Essas pessoas, então, vão sentir na própria pele uma oposição que não é uma oposição a si, mas sim à palavra que trazem em si. Por isso mesmo, uma tal pessoa vai também enfrentar esta realidade: Deus a seduziu, e ela deixou-se seduzir por Deus, e agora não consegue dizer não à missão porque não quer mais afastar-se de Deus.
Jesus é a própria encarnação desta obra de Deus. É nele que a vontade de Deus se encarna, frutifica e produz a salvação. A vivência cristã, então, se torna uma espécie de imitação de Cristo, uma imitação que não se reduz a ser simplesmente moral, mas sim uma imitação como aqueles que receberam a graça da santificação pelo batismo e agora, vivendo essa graça, desejam cada vez mais unir-se àquele que é a fonte de todo bem e do amor eterno.
Pedro, ainda sem entender essa profundidade da dinâmica do relacionamento de Deus com a humanidade, e sem entender ainda toda a profundidade da palavra do próprio Mestre, quer repreender Jesus com boa intenção. Ele quer que Jesus não seja morto, que não sofra; afinal de contas, ele ama Jesus e por isso mesmo quer também o seu bem. No entanto, é necessário que Pedro possa sair da mentalidade daqueles que querem só evitar as dores e os sofrimentos, para entrar numa mentalidade nova, ou seja, aquela mentalidade propriamente evangélica. Jesus diz: “Vai para longe, Satanás!”7 Uma frase muito forte. Mas, na realidade, o que Jesus está dizendo? O lugar de Pedro é no seguimento de Jesus: não é Jesus que deve seguir Pedro, mas Pedro que deve seguir Jesus. Pedro deve ainda mergulhar no Evangelho, conhecer mais a sua profundidade, perceber a sua riqueza e a sua beleza, que é o que pode tirar dele todo medo e toda angústia e levá-lo àquele estreitamento de laços com Deus, de tal forma que o reconhecimento da presença de Deus possa ser mais forte e possa direcionar a sua vida.
Jesus mesmo diz: “De que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro, mas perder a sua vida? O que poderá alguém dar em troca de sua vida?”8 O dom, o bem maior, é a vida. Esta vida nós a encontramos em Deus. Jesus Cristo, então, é este dom da vida que Deus faz à humanidade: a comunicação do dom da vida para que todo aquele que esteja unido a Cristo possa receber esta nutrição vital, de tal forma que, abastecido e nutrido pela graça da salvação, possa ter a vida verdadeira.
A vida verdadeira que nos traz Jesus aponta para além desta existência, tal qual nós a conhecemos. Ele anuncia o seu sofrimento, paixão e morte, mas é aquele que também deve ressuscitar no terceiro dia. Esta parte parece que Pedro não conseguiu entender. Depois, meditando os evangelhos que narram as aparições de Jesus após a sua ressurreição, nós entendemos bem: ele ainda não compreendia o que significava ressuscitar dos mortos.9 Aquela compreensão vem com o testemunho do Cristo vivo e ressuscitado. Pedro precisa ainda chegar a este conhecimento do ressuscitado. E isso é um testemunho também para nós: nós precisamos encontrar o Cristo e testemunhá-lo como o ressuscitado.
Na segunda leitura, Paulo nos exorta a viver a nossa vida como sacrifício vivo;10 não como quem busca sofrimentos, mas sim como entrega a Deus, como entrega ao seu amor. Aquele coração que tem sido seduzido e que se deixou seduzir por Deus se oferece agora inteiramente a Ele, mesmo consciente das dificuldades, dos sofrimentos, das situações de oposição que encontra. O culto espiritual, então, é justamente esse culto profundo, onde o louvor, a ação de graças, o sacrifício são oferecidos de um coração que está imerso no amor; alcançado por este amor e plenificado por ele pode fazer de si mesmo uma oferta. É o coração que não vive voltado para si ou para assegurar os bens que possui, mas sim aquele que descobre que o verdadeiro bem está no encontro para além de si, e por isso mesmo se projeta para fora, neste dar-se sem medidas, porque sabe que aquele que o recebe tem a capacidade de superar o nosso próprio dom e, ao mesmo tempo, o acolhe e o eleva, para que assim a perfeição possa estar em nossas vidas. Não é, então, uma perfeição moral da nossa parte em primeiro lugar, mas sim a perfeição da obra de Deus, da sua presença que nos eleva, de tal forma que o nosso agir moral pode, então, aprender desta obra que o próprio Deus realiza em nós.
Por isso mesmo Paulo, na sua exortação, diz: “Não vos conformeis com este mundo.”11 Ou seja, o mundo não deve ser a forma que nos molda. Continuando, ele diz: “Mas transformai-vos, renovando a vossa maneira de pensar e julgar.” Ou seja, aquele que nos modela deve ser o próprio Deus. Estamos no mundo, estamos inseridos no mundo, mas ao mesmo tempo temos uma vocação eterna. Somos chamados a nos modelar a partir da experiência daquele que é eterno. E aquele que é eterno transforma a nossa vida, o nosso amor, o nosso olhar, para que nós possamos distinguir, em nossa vida, aquilo que é bom daquilo que não é bom. Melhor dizendo: distinguir a vontade de Deus em nossa vida, aquilo que lhe agrada, aquilo que é bom e, ao mesmo tempo, nos santifica e nos dá a verdadeira paz.
Viver, então, a Eucaristia dominical não somente como um cumprir o preceito, mas sim como um mergulhar de corpo e alma no mistério do próprio Cristo vivo e ressuscitado que ali se manifesta é uma necessidade vital para a nutrição da vida cristã. A Eucaristia existe porque ele ressuscitou dos mortos. Aquele que se dá na Eucaristia é o mesmo que ressuscitou dos mortos. Não é só um elemento que nos recorda quem foi o Cristo, mas sim alguém: a sua presença viva e vivificante.12
Se nós hoje, então, quisermos ser cristãos, devemos assumir a sua presença. Ou seja, se nós quisermos ser cristãos, devemos seguir os passos de nosso Senhor Jesus Cristo. É no seu seguimento que a nossa vida encontra o verdadeiro sentido. E é nesse seguimento que nós vamos entendendo o quão profundo, belo e, ao mesmo tempo, forte e eficiente é o amor de Deus, que produz em nossas vidas um sentido que supera a própria dor e produz em nossa vida aquela vida que ninguém pode arrancar. Ou seja, podem tirar a vida de alguém que está em tamanha amizade com Cristo, no sentido de eliminar a sua existência; mas aquela vida que é gerada por Deus não é tirada: ela passa a brilhar mais ainda. E assim, esta pessoa que, vivenciando um martírio, vive a sua comunhão com Deus até as últimas consequências é justamente a pessoa que fez a experiência de se colocar no discipulado de Jesus, passou pela morte e, por isso mesmo, pode então esperar com confiança a ressurreição dos mortos.
Afinal de contas, aquele que nos dá o dom da vida verdadeira nos dá um dom que não se perde nesta existência, que não encontra o seu fim no fim da nossa existência, mas que traz a semente da vida eterna. E por isso mesmo esta semente pode crescer desde já, produzir os seus primeiros frutos, mas produzirá também aqueles últimos frutos, ou seja, aquela vida que está acima de toda morte, a vida vencedora da morte e, por isso mesmo, a vida que permanece para sempre. Só Deus tem o poder de sustentar-nos para a eternidade e de fazer que vivamos a eternidade como comunhão, e não como separação.
Que nós possamos, então, motivados pela luz da liturgia da palavra de hoje, aderir mais ao Cristo, para que Nele possamos fazer e renovar constantemente a nossa experiência de Deus. Uma experiência que não é simplesmente particular, não é aquela experiência intimista de Deus que fecha a pessoa em si mesma, mas sim a experiência pessoal, uma experiência de encarnação. Uma experiência que toca toda a nossa existência, toca a nossa interioridade, mas também se traduz em obras que podem ser percebidas na exterioridade. É uma obra completa: não nos faz simplesmente sentir-nos bem, nos faz viver o verdadeiro bem; faz com que o bem realmente cresça em nossa vida. Um bem que não se reduz ao sentimento; um bem que, mesmo quando o nosso sentimento não está a favor, permanece o mesmo, assim como o profeta que, quando pensou em desistir, em silenciar, não conseguiu resistir à presença de Deus. Porque, mesmo quando as suas sensações não colaboravam para a vivência da sua missão, na sua fé ele percebeu: Deus continuava ali e era o bem que o sustentava e que o nutria; então era ali que ele deveria estar.
Que possamos, então, no Cristo, vincular-nos cada vez mais a Deus. Estarmos nesse relacionamento com ele de forma a desejarmos esse estreitamento de relações cada vez mais, para que, neste nosso esforço, neste nosso empenho e orientação de vida, a própria obra de Deus cresça em nossas vidas, e ele possa então santificar-nos e salvar-nos, a cada um de nós.
Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo! Para sempre seja louvado!
Notas
Leituras do 22º Domingo do Tempo Comum, Ano A: Jeremias 20,7-9; Salmo 62(63),2.3-4.5-6.8-9; Romanos 12,1-2; Mateus 16,21-27.
Oração coleta do 22º Domingo do Tempo Comum (Missal Romano): “Ó Deus do universo, de quem procede todo bem, semeai em nossos corações o amor ao vosso nome e estreitai os laços que nos unem convosco, para fazer crescer em nós o que é bom e guardar com amorosa solicitude o que nos destes.” A homilia inteira se apoia nesta oração. ↩
Jeremias 20,7, abertura da primeira leitura: “Seduziste-me, Senhor, e deixei-me seduzir.” ↩
Bento XVI, carta encíclica Deus Caritas Est (25 de dezembro de 2005), nn. 9-10: o amor de Deus pelo homem é eros e, ao mesmo tempo e totalmente, agape — amor que atrai e amor que se doa, sem que um se oponha ao outro. ↩
Jeremias 20,7b-8a, na sequência da primeira leitura: “Foste mais forte, tiveste mais poder. Tornei-me alvo de irrisão o dia inteiro, todos zombam de mim.” O “não consigo resistir” do fim da leitura está em 20,9. ↩
Salmo 62(63),2 — refrão do salmo responsorial: “A minha alma tem sede de vós, como a terra sedenta, ó meu Deus.” ↩
Mateus 16,21-27, o Evangelho do dia: o primeiro anúncio da paixão, a repreensão a Pedro e as condições do seguimento. ↩
Mateus 16,23: “Vai para longe de mim, Satanás! Tu és para mim uma pedra de tropeço, porque não pensas as coisas de Deus, mas sim as coisas dos homens.” ↩
Mateus 16,26, ainda no Evangelho do dia. ↩
Marcos 9,10: depois do segundo anúncio da paixão, os discípulos discutiam entre si “o que significava ressuscitar dos mortos”; cf. João 20,9. ↩
Romanos 12,1, a segunda leitura: “oferecei os vossos corpos como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus: este é o vosso culto espiritual.” ↩
Romanos 12,2, na sequência da segunda leitura: “Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos, renovando a vossa maneira de pensar e julgar, para poderdes discernir qual é a vontade de Deus.” ↩
A liturgia chama esse “hoje” de memorial: não a lembrança de um fato ausente, mas a presença do próprio mistério celebrado. Cf. Catecismo da Igreja Católica, nn. 1085 e 1362-1366. ↩
Texto revisto para publicação. A revisão corrigiu concordância, regência, pontuação e repetições, sem alterar o conteúdo da pregação. As notas foram acrescentadas nesta edição e não faziam parte do texto pregado: indicam as passagens citadas ou aludidas na homilia e as leituras próprias do dia.
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